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segunda-feira, 14 de março de 2011

14 - Lavando a honra com sangue

__Por mais difícil que seja, não pode desistir da vida...
__Vá embora!
__Não. Somos amigos. Precisa falar sobre o que aconteceu.
__Com que cara vou encarar as pessoas daqui para frente, os amigos, minha mãe...
__À merda Joca! Reaja! Sabe, isso não é o fim do mundo. Um merda de um bandido, um maníaco idiota,  faz essa cagada com você e por isso tenta se matar...E seus amigos? E sua família, sua mãe que te ama? Pare de dizer bobeiras.
__Diz isso por que não é contigo que aconteceu...
__Vou te contar uma coisa. Só para que veja que não é o fim do mundo isso que te aconteceu. Sabe o Batista?
__Deixa de me enrolar. Nada que me contar vai apagar isso...Joca apontou para algumas manchas roxas no seu pescoço.Nada que diga vai apagar o que trago aqui. Apontou para sua cabeça. Vou levar a imagem daquele filha da puta e suas mãos sujas o resto da vida na minha mente. Como vou me olhar no espelho?
__Eu estou lutando por um sentimento que ninguém aprova. Vou dizer, mesmo que não adiante nada para você, eu vou te contar. Eu sinto por Batista um carinho especial. Algo que nunca senti por mulher alguma.
__Saia daqui!
__É sério! Estou me abrindo com você! Escute primeiro.Depois você faz o que quiser, está bem?
__Está me dizendo que ama o Batista? Que é gay? Acha que mentindo vai me fazer aceitar o que aconteceu?
__Não é mentira! Juro pela minha mãe! Jamais iria falar disso com quem quer que seja...Mas você quer morrer. O que acha que senti quando o carcereiro me contou que cortou os pulsos?
__Continue...
__Está vendo? Só de pensar nisso sinto calafrios. Marcos estava vermelho de vergonha. Eu estou apaixonado pelo meu melhor amigo, mas não aceito. Não admito nem pensar no assunto.E não aceito que me chame de gay.
__Ele sabe disso?
__Não cara! Só você sabe agora. Entende por que te contei isso? Para que veja que não é a única pessoa que tem problemas. Eu me sinto uma aberração quando lembro de todas as noites que passei fantasiando que estava...Marcos se calou.
__Você sente desejo por Batista?
__O que quero que perceba é que, mesmo não aceitando, mesmo achando uma grande loucura, jamais me mataria por isso. Tente aceitar o que aconteceu com você. Lá fora, as pessoas que realmente importam para você, essas não sabem e se soubessem não se importariam com nada disso. Tem que reagir Joca!
__Mas...E quando eu sair da enfermaria?    Como vou encarar as pessoas? O rapaz da minha cela vai me olhar diferente, todos vão...
__Fica frio. Vou dar um jeito nisso. Prometo. Só quero que prometa que não vai tentar se matar de novo. Joca tinha decidido cortar os pulsos, mas foi flagrado no início. Foi uma sorte o médico entrar bem na hora. Por pouco não tinha partido dessa vida, depois do desgosto de ter sido currado pelo Boca.
Marcos saiu preocupado. Sabia que o amigo tinha razão. Todos o olhariam diferente e o próprio Boca não o deixaria mais em paz. Tinha que fazer algo definitivo para ajudar o amigo.
No mesmo dia pediu ao advogado que entregasse uma carta a sua mãe. Dentro do envelope outro menor, lacrado e endereçado ao Alemão. Na carta que escreveu a sua mãe contou parte do que aconteceu com Joca, disse que levou uma surra, omitindo o abuso. Pediu que entregasse a carta ao Alemão pois Joca corria risco de vida. Disse que apelava para seu lado cristão, que só Alemão poderia ajudar a proteger o amigo.
A mãe sentiu uma grande pena do rapaz, se colocou no lugar da mãe dele, jamais desejaria que alguém machucasse seu filho. Sem hesitar foi até o alto da favela e pediu para falar com o traficante.
Depois de ler atentamente a carta que veio lacrada em seu nome...
__Diga ao seu filho que vou tomar algumas providências. Pode ficar sossegado  que Joca está em boas mãos. Ninguém mais vai aborrecer o menino.
A mulher saiu dali disposta a ir no presídio logo cedo para tranquilizar o filho.



__É. Mais uma que devo ao Alemão. Quando ele decidir me cobrar pelos favores não terei como escapar. Mas tudo pelos amigos.
__Acha que ele vai fazer o que? Joca estava curioso.
__Não sei. O que sei é que mandou você ficar sossegado e acredito nele. Amanhã quando sair daqui  vai  ser de cabeça erguida ok?
Pelo visto Alemão tinha grande força ali dentro. Joca foi transferido para a cela de Marcos.
__Cara! Como conseguiram isso?
__Mexemos uns pauzinhos...
__E o Boca?
__O que é dele está guardado. Marcos respondia as perguntas dos companheiros de cela enquanto procurava o traficante com os olhos. Tinha que tomar cuidado.
__Bom, não sei o que fez, mas seja o que for, fez direito. Boca anda dizendo que você vendeu a alma ao Diabo...
__É mesmo? Bom, se disse isso, então sabe que sua batata está assando. Aliás, acho que está queimando...
__Acha que o Alemão fará algo contra a vida dele? Joca estava curioso com o destino de seu agressor. No fundo a possibilidade de  vê-lo morto o agradava.  Tinha medo de ser pego novamente, preferiria morrer.
__Joca, fica tranquilo, já disse que não vai te incomodar mais.
João se aproximou  da cela e fez um sinal para Marcos, que se dirigiu até ele.
__O que quer?  Estavam no corredor, em alguns instantes soaria o toque de recolher e os carcereiros passariam para trancar as celas.
__Boca quer falar contigo.
__Não tenho nada para falar com ele.
__Ele sabe que é protegido do Alemão. Bom, parece que os dois tem negócios em comum. Ele quer resolver essa situação de uma vez por todas.
__Diga ao Boca que esse assunto já está resolvido. Que foi ele que bancou o traíra tomando a atitude que tomou. Agora que arque com as consequências.
__É sua última palavra?
A campainha tocou e todos entraram nas celas.
__Vá dizer ao seu amigo. Assunto encerrado.


__O que fizeram com você? A mãe de Joca estava em prantos ao ver as marcas no pescoço do filho.
__Isso aqui é o inferno mãe! Não vejo a hora de sair. O advogado não disse se tem alguma previsão?
__Vou perguntar a ele. Mas me conte. O que fizeram contigo, meu filho?
__Foi uma briga. Mas não se preocupe, estou bem.
__E essas marcas no seu pulso?
__Foi uma briga, já disse...
__Acha que sou burra? Foi você que cortou os pulsos assim?
__Mãe. Vamos falar do que realmente importa...
__Eu quero saber.
__Eu perdi a cabeça. Queria ir embora. Fiz uma burrada, foi isso. Não vai acontecer mais.
__Tentou se matar? A mulher estava branca feito cera. O ar parecia fugir.
__Mãe. Droga! Policial! Socorro! Tiveram que levar a mulher até o ambulatório para que fosse examinada. Joca foi levado de volta à cela contra a vontade.
__Fique calmo! Gritar feito um louco não vai adiantar. Quer que te mandem para a solitária?
__Eu não devia ter aceitado a visita de minha mãe. Se algo acontecer com ela não vou me perdoar.
__Não adianta se culpar. Pronto, já conteceu! Agora é esperar que se recupere. Ela é forte, fica frio.
Duas horas depois vieram buscar o rapaz para que falasse com o advogado. Ele lhe disse que sua mãe estava bem e que já tinha retornado para sua casa. Podia dormir tranquilo. O que não sabia é que o homem mentira, a mulher teve uma ameaça de infarto e estava internada numa cliníca perto do presídio. De nada adiantava preocupar o rapaz, afinal não o deixariam sair dali para vê-la. Só era permitido sair com escolta em caso de morte e, se Deus ajudasse, isso não aconteceria.

__É isso mesmo que você ouviu. Jandir, o rapaz que trazia as notícias do mundo do lado de fora do presídio relatou ao rapaz o recado que Alemão tinha mandado.
__Quer que eu mate o Boca? Mas eu nunca matei nem uma mosca...
__É isso ou ele vai continuar impune. O Alemão foi bem categórico: "Dê as condições necessárias para que o rapaz execute o serviço ele mesmo".
__Sabe por que fez isso? Por que não usou um de seus contatos aqui dentro para fazer justiça?
__Parece que Alemão e Boca tem negócios em comum. Ele disse que já conseguiu a palavra do traficante para que nunca mais se aproxime de você e dos seus amigos. Mas, se quiser vingança, terá que fazer com suas próprias mãos.  O carcereiro lhe entregou uma sacolinha com um embrulho dentro. Era uma faca.
__Não pode continuar vivo. Eu não confio nesse cara. Vai acabar pegando Joca novamente.
__Bom. Minha parte eu fiz. Guarde bem essa faca. Depois do serviço pronto deixe ela lá com o presunto. Ah, use a luva que está junto. Depois você some com ela.
__Quando será?
__Daqui dois dias. Eu te aviso. Deixo a sua cela e a dele destrancada. Primeiro preciso inventar um jeito de mandar o companheiro de cela dele para a solitária. Vê se cria coragem. Se for pego o problema é seu. Não me envolva nisso.
__Pode deixar. Obrigada.

__Marcos, não precisa fazer isso. Nunca matou ninguém. deixa para lá. Vamos sair logo daqui.
__Fica frio Joca. Farei o que tem que ser feito. Não se preocupe. Não vou me culpar por matar um verme como aquele.
__Mas será assassinato. Se te pegam vai apodrecer aqui.
__Ninguém vai me pegar, não se preocupe. Alguém vem trancar nossa cela depois do serviço  pronto. Assim ninguém saberá que fui eu.
__Não sei não.
Marcos também estava inseguro, mas não podia deixar o amigo perceber. Se pelo menos pudesse se aconselhar com Batista, fazia  tanto tempo que não se falavam. Durante o tempo que estava preso pode pensar muito na relação dos dois. Tanta coisa perdia a importância agora. A opinião das pessoas há muito não importava mais. Olhando Joca e analisando tudo que tinha passado, via que o sentimento que nutria por Batista não era tão absurdo assim. Afinal, sabia que era correspondido. Que importância teria as convenções sociais, o modo machista com que foi educado, as intolerâncias contra os gays e tudo mais que sempre cultivou? Era tudo tão pequeno perto da experiência de vida que tinha adquirido ali naquele presído. O valor da amizade, Joca que precisava de proteção. Ele sempre lembrava dos irmãos mais novos quando via o medo estampado no olhar do amigo.
Já não sentia mais nojo ao fantasiar um carinho mais íntimo com o amigo que estava lá fora, sabe-se lá fazendo o que...Será que tinha arranjado outra pessoa? Será que tinha voltado a sentir como um hétero?
Muitas dúvidas rondavam sua cabeça. Só uma coisa era certa: se tivesse outra oportunidade com o rapaz, certamente não deixaria escapar. Foda-se a família, os amigos, o pessoal do bairro, o mundo todo! Ia abandonar as mulheres. Finalmente podia admitir que em todas as orgias em sua casa, era seu amigo que desejou ter. E toda vez que o via transando com aquelas cadelas,  ele as machucava de raiva, por saber que elas tinham aquilo que ele mais queria, o prazer sexual que não tinha coragem de buscar.
__Que merda! Marcos pensou alto.
__O que foi?
__Durma Joca. Foi um pesadelo, só isso. Era difícil dizer para o amigo, mas se sentia mal por estar preso. Nunca a liberdade foi tão importante. Precisava resolver sua situação com Batista.Sabia que dificilmente superaria a vergonha de assumir um relacionamento homosexual em público, mas quem sabe o próprio amigo não o ajudaria a enfrentar tudo isso? O fato é que estava disposto a tentar.

No dia seguinte...

__Será hoje a noite.
__Já?
__Sim. Não vá vacilar. Deixo sua cela aberta e coloco um remedinho na água do elemento. Assim dormirá feito um anjinho e não verá quando eu abrir a dele.
__Não quero matar um homem dormindo! Quero que veja.
__Não se preocupe. O remédio é fraquinho. Ele acordará quando você o chamar.
__E o companheiro de cela dele?
__Vou dar uma geral nele hoje e vou encontrar um canivete. Dois dias na solitária o farão pensar sobre isso. Deu uma gargalhada.
___E depois do serviço pronto?
___Volte para sua cela  e limpe suas mãos. Eu tranco a porta.

As horas demoraram para passar naquele dia.
Mais tarde, finalmente chegou a hora decisiva...
__Tem certeza? Não quer desistir?
__Dorme. Se perceberem que está acordado vão desconfiar.
__Boa sorte então. Se cuide! Não vá deixar ele perceber antes da hora...
__Dorme, já disse. Fica calmo.
Como se fosse possível dormir diante do que estava por acontecer...



Próximo Capítulo - Dia   14 de março de 2011
Capítulo VII - Encerrando uma fase ruim.

segunda-feira, 7 de março de 2011

13 - Capítulo VI - O Bicho Pegou na Cadeia!

O ser humano não sabe do que é capaz até se sentir acuado. Uma pessoa tranquila e boa gente pode se tornar um assassino frio e cruel se se sentir ameaçado ou se sentir a dor de ver um ente querido machucado ou correndo risco de vida. Essa é a regra da vida. Só se conhece um homem em meio às turbulências.
Os mais fracos sucumbem e os mais fortes atacam!
Marcos aprendeu muito naqueles poucos dias de estadia na prisão. Sessenta e dois dias desde que se entregou à justiça.  Já convivia com Joca e Sandoval durante o banho de sol e as refeições e temia por suas vidas, pois sentia que planejavam algo contra eles, pela maneira com que olhavam os três toda vez que saiam ao pátio.O problema era com Joca, que vivia acuado e constrangido, observado  pelo manda chuva do pavilhão. Era conhecido por "Boca", um traficante que comandava, mesmo dali, todo o tráfico de uma das maiores favelas de Porto Alegre. A maneira como ele encarava Joca fazia com que temesse por sua vida.
__Eu soube de fonte segura que Boca ofereceu 2.000 reais para o carcereiro deixar a cela do teu amiguinho destrancada essa noite.
__Filha da puta! Tem certeza mesmo?
__Cara! É quente! Teu amigo tá ferrado. Vai virar mulherzinha dele hoje ainda.O companheiro de cela de Marcos não queria encrenca, por isso escondeu a fonte de sua informação.
Na hora do almoço Marcos viu quando Boca  entregou um pacotinho a um dos carcereiros. O medo foi  substituido por revolta por estarem ali, talvez fosse o único sentimento  que o companhava desde o início
 A sala de refeições e o pátio onde tomavam sol eram os dois lugares mais conflitantes,  pois ficavam expostos aos comentários e avaliações dos detentos. A maioria ainda via nos novatos um divertimento, uma vez que  ali não havia muitas opções de lazer.
Boca não escondia seu interesse por Joca. O modo apavorado como o rapaz  se comportava cada vez que via o traficante na sala de refeições deixava-o   mais interessado ainda. Era um homem frio, que costumava intimidar os mais fracos,  obrigando-os a serví-lo em suas necessidades. Não era segredo a sua preferência por rapazes, ainda mais com traços finos como o de Joca.
Marcos soube do acordo feito com o carcereiro e decidiu agir antes que o pior acontecesse.
Estavam na hora do almoço quando levantou-se de supetão da mesa e encarou Boca que estava do outro lado do salão.
Percebendo seu olhar o homem gritou:
__Algum problema?
__Eu é que pergunto. Perdeu alguma coisa aqui?
Pratos foram afastados, mesas empurradas e os olhares dos detentos procuraram pelos guardas. Marcos não esperou pelo homem, se adiantou até onde estava com olhar firme e com os punhos fechados e disse:
__Eu não sou esse babaca que pensa que sou. Cheguei aqui na boa, não me meti nos teus assuntos, até achei teu negócio bem estruturado e tinha decidido pedir uma oportunidade.
__Oportunidade? Bebeu foi?
__Deixa eu terminar. Depois você faz o que quiser.
__Vá lá, termine...
__Eu sou da paz. Só queria expandir meu negócio lá fora, sem incomodar ninguém,  mas os brigadianos interferiram e aqui estou. Vacilei, assumo. Vacilei legal! Mas não é por isso que pode me tratar como um pato. Sou muito homem!
__Eu te tratei como um pato?
__Tá de olhos espichados para meu amigo.
__Ah! Isso? Não sabia que ele era sua mulherzinha.
__Não sabia? Todos sabem...Quem aqui não percebeu?
Todos se olharam e os comentários foram surgindo. "Eu bem que desconfiei...", "Não te disse?", "Eu já sabia"...
__Calem a boca! Boca estava vermelho de raiva.
__Eu...Joca pensou em negar, mas foi cortado por Marcos.
__Cala a boca! Essa conversa  é entre homens!
__Então a belezura é sua namorada! Olha aqui, não gosto que me enfrentem. Mas também, sou contra traição, principalmente no campo das intimidades. Mulher para mim é sagrada e só se conserta uma traição com a morte. Mas também costumo não admitir afronta. Quem tu pensa que é para vir ditar o que posso ou não fazer? Boca segurou Marcos pelo colarinho e completou:
__A mulher pode ser tua, não mexo mais, pode ficar tranquilo. Agora, esse rosto eu vou ter que marcar...E antes que pudessem fazer alguma coisa imobilizou o rapaz contra a parede e fez um corte no lado esquerdo de seu rosto.Os guardas assistiam tudo de longe e pareciam satisfeitos com o desfecho.
_Marcos estava sangrando  muito. Cerrou o punho e encarou o homem com desprezo. Tinha poucos segundos para decidir que atitude tomar: Extravazar toda sua raiva num murro que certamente acabaria em muita pancadaria, afinal era bom de briga, sempre foi admirado por jamais levar desaforo para casa ou engolir sapo, dando meia volta e retornando ao seu lugar como se nada tivesse acontecido. A última opção lhe renderia uma dor de cabeça enorme, além de muitas noites de insônia, afinal era humilhante para seu orgulho se passar por covarde, mas seria o mais correto, uma vez que o problema inicial, o assédio a Joca, estaria resolvido.
Pensando dessa forma pronunciou:
__Não vou revidar, acho que mereci pela forma ditadora que me dirigi a você no início da nossa conversa. Mas preciso saber se nossa questão estará resolvida ou se ainda restará alguma pendência.
__Não se preocupe. Como já disse, a mulherzinha é sua.
__Assunto encerrado então.
__Já vi que o moço é acostumado a mandar. Aqui quem manda sou eu. Portanto, se lembrar disso daqui para frente, eu concordo que nosso assunto está encerrado.
Apesar da discussão estar terminada o clima era tenso. Ficou algo no ar, talvez pela altivez de Marcos. Bola gostava de ver todos a seus pés, como lacaios, e o rapaz jamais agiria assim.
De qualquer forma o problema de seu amigo estava resolvido.
__Não sei se foi melhor assim. Passar por seu viadinho...
__Ia ser mulherzinha dele hoje a noite. Se não acredita em mim pergunte ao Luiz, foi ele que me avisou.
Contou rapidamente ao rapaz sobre a negociação do homem com o carcereiro e a conversa terminou. Naquela noite os dois desejaram ardentemente que tudo acabasse logo. Nunca na vida sentiram tanta falta de casa! A família tinha uma grande importância na vida das pessoas. Pena que para descobrir isso precisassem chegar ao fundo do poço.

Gravidez ou Gravidade?


__Eu sei mãe. Não estou iludida. Apenas queria que Almir soubesse.
__Achou o que? Que ele ia se casar com você quando contasse que estava grávida?
__Não. Achei que ficaria feliz em ser pai, só isso.
__Acorda filha. Não é a primeira nem será a última a cair nesse conto.
__Mas eu não caí em nada. Eu transei porque estava apaixonada.
__E agora? Já pensou em como será nossa vida de agora em diante?
__Perdoe-me...
__Vai ou não fazer o que eu disse?
__Não gosto de mentir...
__É por uma boa causa. Ele não quer que você faça um aborto? Você pega o dinheiro e pronto. Ele fica feliz e a gente um pouco mais segura. Sabe o que é começar uma vida nova com uma filha grávida e sem dinheiro?
Estavam de malas prontas. Iam partir para São Paulo onde tinham alguns parentes e onde as oportunidades de trabalho eram melhores. Precisavam sair de Porto Alegre para garantir uma gravidez tranquila, pois quando Almir soubesse que teria o bebe, certamente viria atras da moça tirar satisfações. Ele ficou uma fera ao saber da gravidez e marcou um novo encontro  para lhe dar o dinheiro para o aborto. Não tinha lhe dado opções. Ou a moça fazia o aborto ou ele a mataria. Almir sempre disse que vagabunda alguma se aproveitaria de um vacilo seu para lhe arrancar dinheiro. Para ele a moça tinha lhe passado o golpe da barriga. A mãe dela estava aliviada, tinha pavor de pensar em entregar sua filha para viver como fugitiva junto de um bandido.

Se as filhas ouvissem a voz da experiência de suas mães, certamente poupariam tanto sofrimento! Quantas vezes a tinha alertado sobre o caráter de Almir e seu envolvimento com drogas, mas sua filha estava cega. Precisou arranjar barriga para perceber que o que o rapaz queria era somente sexo, sem complicações.
Agora sua vida estava comprometida. Nada de saídas no final de semana, roupas novas, sonhos de faculdade...Um filho era prioridade e no momento teriam que trabalhar para garantir que tivesse as necessidades básicas que uma criança precisa. Ainda mais numa cidade estranha, já que teriam que fugir dali para ficar longe da ira do rapaz.
__Tudo bem mãe. Eu pego o dinheiro e digo que farei o aborto. Depois a gente foge e não nos vemos nunca mais.
__Isso filha. Não sei quanto ele vai te dar, mas qualquer quantia é melhor que nada. Assim ele fica tranquilo que você tirou o bebe e deixa a gente em paz. Recomeçamos nossa vida longe daqui, só nós duas.
Se abraçaram e continuaram a empacotar seus pertences. Tinham pouca coisa, os móveis iam para uma transportadora. Haviam conseguido carona no caminhão de um amigo que ia levar uma carga até o Porto de Santos. De lá ficaria mais fácil e barato também. 
Iam embora para São Paulo em cinco dias.


E os dias atrás das grades...


Os dias foram passando  e nada de liberdade. Os comparsas já estavam perdendo a esperança de responder em liberdade. O julgamento havia sido marcado para o mês seguinte. 
__Finalmente! Acha que seremos condenados? Sandoval ainda tinha esperança de uma absolvição.
__Esquece! Claro que seremos condenados. Fomos pegos em flagrante, esqueceu? Joca era o mais conformado dos três.
__O idiota do Almir é que se safou dessa. Continua livre. Mas vocês não precisam se preocupar. São réus primários e o nosso advogado é o melhor de Porto Alegre. Se formos condenados será uma pena leve, com certeza. O jeito é levar na boa. Marcos parecia calmo.
__Pretende continuar com os roubos depois que sair daqui? Pode tirar o cavalinho da chuva, eu não entro mais nessa.
__Nem eu, Joca concordou com o amigo.
__Podem ficar despreocupados. Estou fora desse ramo. Mas o que me preocupa é o tempo que teremos que passar aqui e não o que faremos lá fora. 
__Batista não foi indiciado?
__Não. E vai continuar assim. Ninguém precisa saber que ele fez parte do negócio. Marcos foi bem seco ao responder a pergunta de Joca.
__A gente nunca vai dizer nada, mas e Almir? Ele odeia o cara.
__Almir é procurado. Fugitivo. Ninguém vai acreditar nele. Depois, é a nossa palavra contra a dele. Não existem provas da participação de Batista.
__Melhor assim. Afinal o pai dele está nos ajudando. 
__Isso mesmo Sandoval. Vamos esquecer de Batista. Esse foi o trato.


No dia seguinte, nem bem o sol nasceu já se ouvia a agitação do corredor no pavilhão principal.
__O que aconteceu? Luiz perguntou ao carcereiro que passava com pressa em direção às celas do lado do refeitório. 
__Parece que machucaram alguém. Fiquem quietos, cada um na sua cela.
__Ei! Marcos! Era João, o rapaz da lavanderia, que passava com uma cesta de roupas sujas de sangue._Machucaram seu amigo.
__Venha até aqui. Marcos teve um pensamento ruim. Temia por Joca. O que aconteceu? 
__Pegaram seu namoradinho. Sabe quem foi, não sabe?
__Mas ele prometeu...
__Ninguém viu nada. Joca amanheceu bem machucado e o companheiro de sela também. Parece que levaram uma surra.
__Só isso? Surra?
__Cara, deve imaginar o que rolou por trás disso. Melhor eu ir antes que alguém nos veja conversando.
__Onde está o Joca?
__Na enfermaria ora...
Ninguém saiu para o banho de sol naquele dia. Marcos tentava de todas as maneiras ver o amigo na enfermaria. Ainda tinha um pacote de cigarros. Não foi difícil comprar o carcereiro.
__Tem dez minutos, não mais.

...


Próximo Capítulo - Dia 7 de março de 2011
continuação do Capítulo VI - Lavando a honra com sangue.